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Quinta-feira
Mar152012

Que Bloco é Esse? - Parte 1

Que Bloco É Esse?
Eu quero saber...
É o mundo negro.
Que viemos mostrar para vocês.

 

Ilê Aiyê e Criolo - Foto de Caroline Paternostro

No final de 2011 recebemos um desafio que veio como um presente. 

Nesse projeto tivemos o privilégio de atender uma das áreas mais legais da Petrobras, a Gerencia de MultiMeios, que cuida do conteúdo produzido pela Petrobras para os meios digitais. E a Petrobras tem o privilégio de ter na sua equipe uma turma com sensibilidade e conhecimento técnico bem acima da média. Liderados por Léo Sá, uma turma boa formada por Waltinho, Eric, Priscila, Gisele e muitos outros fazem a diferença tanto na empresa, como em toda a sociedade, através do trabalho que realizam. Sem eles, nada disso que vou descrever nas proximas linhas teria acontecido da forma que aconteceu. Vamos lá:

Desde 2006 a Petrobras patrocina os principais blocos Afro de Salvador, mas estava tendo dificuldades em ter retorno institucional com o investimento. 

Isso, na verdade, era sintoma de um problema maior. 

A cultura Afro-Baiana é o Ouro Negro do Carnaval de Salvador. Dos blocos afro saíram a estética, as musicas, os interpretes e a energia do maior carnaval do Brasil. 

Contudo, e apesar de sua importância, esses blocos enfrentam todos os anos uma verdadeira batalha para conseguir desfilar. E, quando desfilam, acabam fazendo sempre nas madrugadas, horários sem espaço na mídia, sem qualquer registro, o que torna quase impossível que sua importância e beleza seja de fato reconhecidas pelo grande público. 

Digitalmente, o problema era ainda maior. Os blocos Afro até então não tinham atravessado a barreira do mundo digital, e plataformas como Youtube não tinham nenhum conteúdo oficial, relevante e completo sobre a história de cada um dos blocos. Nem qualquer registro de seus ensaios e desfiles.

E, sem exposição, sem registro, a existência desses blocos tornava-se insustentável. 

Então, estávamos todos num ciclo perigoso. O investimento da Petrobras garantia o funcionamento e a infra-estrutura dos blocos, mas não resolvia a grande questão que poderia ajudar esses blocos a terem uma existência mais auto-sustentável.

Então, nossa missão era reverter a forma como a Petrobras trabalhava o patrocínio dos blocos afros de Salvador, através de uma estratégia de branded content, de forma a valorizar a história e importância desses blocos, povoar o mundo digital com conteúdo informativo e de entretenimento sobre as entidades, e apresentar sua cultura a um novo público que, nascido no ambiente digital, não teria tido, até então, a oportunidade de conhecê-los.

A Petrobras apoia os mais importantes blocos afro da Bahia. São eles o Ilê Aiyê, Olodum, Muzenza, Malê DeBalê, Cortejo Afro, Okambi, Bankoma e Os Negões. Cada um com sua história, seus simbolos e sua musicalidade. Um dos desafios era também tratá-los respeitando, e valorizando, a historia de cada um deles.

Mais do que um job, tratava-se de uma causa muito importante, e toda a Petrobras estava extremamente empenhada em fazer um projeto forte, completo e acima de tudo, verdadeiro. E com a liderança do Leo Sá, da área de Multimeios da Petrobras, outras áreas da empresa se envolveram para fazer tudo acontecer da melhor forma. Amarrar todas as pontas foi difícil, mas sem dúvida o resultado fez tudo valer a pena.

Voltando ao briefing, apresentamos a Petrobras uma estratégia baseada em dois pilares. Reverberação e Registro. Uma ação de alto impacto, entretenimento mesmo, que reverberasse para novos públicos a existência, a importância e o valor dessas entidades, e tudo isso acompanhado de um esforço grande em produzir um material completo de registro da identidade desses blocos, para povoar o mundo digital com material relevante e a altura da importância que eles têm na cultura do nosso país.

E daí surgiu o projeto "Que Bloco É Esse?"”

O nome é uma referência a primeira música já gravada por um bloco Afro da Bahia que, composta por Paulinho Camafeu, resume tanto o propósito do nosso projeto, como também da existência dos blocos Afros em si: apresentar o valor que o negro tem. A música foi executada a 1a vez em 1975, e gravada por Gilberto Gil em 1984.

Essa música foi a grande inspiração e referência e, como não poderia deixar de ser, foi também o tema da ação carro-chefe de todo o projeto: a produção de um clipe-musical do Ilê Aiyê, o primeiro video-clipe já produzido para um bloco afro. Se a ideia seria apresentar a cultura desses blocos para um novo público, nada melhor do que usar o formato video-clip e a MTV para isso.

Convidamos o diretor Ricardo Spencer, que além de ser baiano, e dominar todos os ritos da nossa cidade, também já levou para casa um punhado de troféus do VMB e Multishow por seus clipes de Rock. 

Mas isso só não seria suficiente. Precisávamos também de um elemento novo. Uma força que trouxesse a música para nosso tempo, sem, de forma alguma, perder a essência. Alguém que tivesse tanta propriedade para ser aceito nas ruas da Liberdade, como também para apresentar o Ilê a um novo público. E essa força chama-se Criolo.

Nunca ninguém me impressionou tanto, em tão pouco tempo, quanto Criolo. Um cara iluminado. Uma energia artística que chegou com a força dos que sofrem, a força da periferia, e que sem dúvida veio para ficar. Como o Ilê Aiyê, ele é também uma entidade. Como o Ilê Aiyê, ele também representa o mundo negro, só que de outro lugar. 

Além das suas letras, e de sua música, ele trouxe também um respeito inegociável em relação ao Ilê Aiyê, sua história e seus valores. Instintivamente, e como não poderia deixar de ser, Criolo colocou-se no lugar que lhe cabia. Um convidado feliz e honrado em poder colaborar e fazer parte da historia de um dos movimentos negros mais importantes da história deste país. Esse cuidado, que não foi roteirizado, pode ser visto no clipe.

Mais do que um video-clipe, o filme é um registro do encontro desses dois mundos. Criolo chega em Salvador, sente a vibração do Ilê, e parte em direção ao Curuzu, onde fica o terreiro que deu origem ao bloco, onde é recebido com honras pelo grupo e pela comunidade. 

Por decisão de Spencer, Criolo não deveria conhecer o terreiro até o momento da gravação, para que a gente pudesse captar com ainda mais veracidade a emoção do encontro. E foi assim que aconteceu. Toda a cena final do clipe foi gravada em sequencia, de uma só vez. Um registro sem ensaios. 

Sobre a música. Para produzir a faixa convidamos Daniel Ganjaman, que trouxe junto com ele o Duani. Ganja é o grande colaborador do Criolo, e um dos caras mais importantes da nova música negra brasileira. Além do Criolo, já produziu com o Planet Hemp. Racionais, Sabotage, Nação Zumbi, Ratos de Porão e Jorge Ben. E além de todo esse talento, é um cara gente boa pra caramba, que teve toda a sensibilidade para conduzir Ilê Aiyê e Criolo na produção desta faixa.

Não chegamos a fazer um briefing de como pensávamos a música. Por orientação do próprio Ganjaman, a ideia era colocar Criolo e Ilê juntos no estúdio e aproveitar o melhor que saísse da emoção desse encontro. E foi exatamente o que aconteceu. 

Criolo não se sentia a vontade para mexer na música original, que considerava uma instituição a ser muito respeitada, mas também já trazia consigo algumas palavras, quase uma nova música, que representavam sua sensação de estar ali e seu respeito pelo Ilê. E daí optou para fazer dessa música uma introdução, quase uma Ode, que abriria o caminho para o Ilê Aiyê chegar com seu bloco. No meio da música, entra o refrão "Eu sou fio de preto, sou brasileiro", que surge no momento em que Criolo chega ao terreiro, e todos percebem-se como um só. 

O clipe foi lançado no dia 28 de Janeiro de 2012, durante a festa da Beleza Negra, na sede do Ilê Aiyê, para toda a comunidade do bloco no Curuzu, e teve também uma grande repercussão tanto na internet, quanto na imprensa, deixando tanto o cliente, quanto nós da New Content, quanto todos os artistas envolvidos muito felizes.

Aliás, num trabalho como este, com tantos talentos envolvidos, o grande desafio é fazer tudo correr de uma forma com que todos fiquem felizes no final. Com todo cuidado e respeito a história e integridade artística de cada um dos envolvidos,  e com foco em produzir um resultado final que deixe todos muito orgulhosos e felizes. E a forma para fazer dessa jornada tranquila é muita conversa, respeito, good vibes, um exercício diário de nivelamento de expectativas e coração aberto para o bem maior. Parece algo difícil tratando-se do mundo corporativo das marcas, mas não é. 

Só que o projeto não parava por aí. O clipe do Ilê Aiyê foi o carro-chefe de uma plataforma bem maior.
Para tangibilizar ainda mais o projeto, e envolver também outras comunidades, convidamos artistas nacionais para participar dos tradicionais ensaios semanais de mais três blocos afro, e registramos esses encontros em vídeos. 

Emicida

A proposta seguia a mesma linha da do encontro entre Ilê e Criolo, mas a execução era diferente. A ideia foi oferecer esses encontros as comunidades, quando os blocos receberiam esses artistas consagrados não para homenagear, mas sim para serem homenageados. E como não dava para fazer 4 video-clipes na dimensão que fizemos do Ilê, iríamos captar esses encontros ao vivo, e colocar esses clipes-registros no Youtube.

Daí saiu o encontro do Malê DeBalê com o Emicida. Que foi sem dúvida um dos mais emocionantes, devido a força do improviso e à inegável e consciente sinergia entre as duas partes. 

O Muzenza recebeu Jorge Du Peixe e Lucio Maia do Nação Zumbi, mostrando uma conexão incrivel entre Bahia, Pernambuco, Africa e Jamaica. 

E o Cortejo Afro, que representa a vanguarda dos blocos afros, e que recebe toda a diversidade em seus ensaios, recebeu Preta Gil para cantar uma música feita para ambos, Eu Sou Preta.

Toda essa primeira parte do projeto, mais voltada para o mundo pop, foi produzida e finalizada nas 3 primeiras semanas de janeiro. Coisa que só foi possível por conta da dedicação total, que extrapolou todo e qualquer profissionalismo, de todos os envolvidos, de todas as partes.

Foi um privilégio poder trabalhar ao lado de gente tão profissional e tão motivada para fazer tudo acontecer de forma impecável.


Matheus e Michelle durante produção do video-clipe

Continua....

 

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