Sábado
Jul022011
Future -of the- Lions
Primeira vez que fui à Cannes.
Nunca tinha sequer pensando em ir, confesso. Premiações sem critérios de campanhas que na maioria das vezes nem sequer foram ao ar. Cases com formatos quadrados e resultados inflados para impressionar um juri, que normalmente já é da panelinha. Difícil identificar critérios e bom senso. Em suma: um festival criado pelo próprio mercado publicitário para celebrar sua genialidade e criatividade. Preguiça.
Embarquei carregado com esses preconceitos. Mas fui.
Ainda no aeroporto de Paris recebi de Giovanni Rivetti o conselho definitivo: esqueça publicitários, prémios, resultados e méritos e foque apenas nas ideias. Como numa semana de moda, não interessa se vão comprar aquelas roupas ou não, pois de uma forma ou de outra as grandes tendências do mercado são estabelecidas ali. Fez sentido. Ainda mais vindo de quem veio. Giovanni sempre esteve ligado ao mercado publicitário, mas sempre atuou a partir de outra lógica, buscando explorar e criar formatos diferentes. Não é a toa que é pioneiro em branded content no país. Se ele pode gostar de Cannes, eu também posso.
Cheguei e fiz meu dever de casa. Assisti à praticamente todas as palestras e ainda a alguns workshops. Passei os olhos em todos os cases expostos nos shortlists. Fui na festa de abertura, frequentei o bar em frente ao Martinez. Não fui para nenhuma premiação, porque aí também já seria demais. Aproveitei o festival intensamente, espremendo o limão em busca da limonada.
E em resumo, depois de diversos insights, me parece que o mercado publicitário chegou a duas conclusões.
Primeiro, que tem de estar cada vez mais próximo da industria do entretenimento. Os melhores momentos de Cannes não tinham publicitários, mas sim entertainers. Jeffrey Bewkes, Aaron Sorkin, Jeffrey Katzenberg, Ben Silverman (mal aproveitado) e até James Murdoch nomes conhecidos de Hollywood, apresentaram a realidade de uma industria que não teve tempo de discutir as transformações da sociedade, uma industria que para sobreviver teve de mudar rápido. Falta ao mercado publicitário este senso de urgência, e disposição para abrir mão de uma lógica em função da outra, que é inevitável.
E o segundo ponto é um pouco do que já escrevi semana passada no blog da Brastemp. Com o surgimento das redes sociais, as marcas nunca tiveram tanto contato direto com seus consumidores. Deixando claro que estamos num tempo de menos propaganda e mais diálogos. Auto citando-me: "A indústria da comunicação está cada vez mais inspirando-se em outros movimentos sociais e caminhando em direção à sustentabilidade das relações entre os indivíduos e seus objetos de consumo, ao equilíbrio da qualidade de vida com os desejos de compras. Mais consciência e menos impulso. Transformação da vida, da rotina e do olhar, para o bem." Ofertas ou propostas de valor tornam-se irrelevantes, commodities, perto das grandes causas.
E no fim, acho que ambos estávamos certos. Muitos insights criativos em relação a formatos e execução. Muitas revelações no sentido do que queremos, e do que não queremos fazer enquanto comunicadores. Clareza absoluta de oportunidades de mercado. Certeza de que a industria do entretenimento é uma boa referência tanto na teoria quanto na prática. E aproximação com muita gente legal do mercado, publicitários como nós, que também buscam uma outra lógica na comunicação.
Mas, por mais positiva que tenha sido a experiência em si, não posso deixar de lado meu olhar critico. Não seria eu.
Num Festival onde falou-se tanto da necessidade das marcas adotarem suas causas, terminei com a impressão de que o próprio Festival de Cannes ainda não encontrou a dele. Criatividade não se inspira com prêmios. Ou com self-promotion. Ou com a construção de egos estratosféricos. Longe disso.
Citando John Milton, do clássico "Devil's Advocate":
"You sharpen the human appetite to the point where it can split atoms with its desire. You build egos the size of cathedrals. Fiber-optically connect the world to every eager impulse. Grease even the dullest dreams with these dollar-green gold-plated fantasies until every human becomes an aspiring emperor, becomes his own god. Where can you go from there? As we're scrambling from one deal to the next, who's got his eye on the planet? As the air thickens, the water sours, even bees' honey takes on the metallic taste of radioactivity... and it just keeps coming, faster and faster. There's no chance to think, to prepare; it's buy futures, sell futures... when there is no future."
De que adianta criar gimmicks geniais, peças incríveis, campanhas de sucesso e voltar para casa com a mala cheia de leões, se não estamos agregando nem um pouco na construção do nosso próprio futuro? No fundo, e apesar de todo lado bom, o Festival de Cannes é uma grande oportunidade perdida de transformar, se não o mundo, pelo menos a industria da comunicação, num lugar melhor. E com isso não me conformo.

@PedroTourinho
Nunca tinha sequer pensando em ir, confesso. Premiações sem critérios de campanhas que na maioria das vezes nem sequer foram ao ar. Cases com formatos quadrados e resultados inflados para impressionar um juri, que normalmente já é da panelinha. Difícil identificar critérios e bom senso. Em suma: um festival criado pelo próprio mercado publicitário para celebrar sua genialidade e criatividade. Preguiça.
Embarquei carregado com esses preconceitos. Mas fui.
Ainda no aeroporto de Paris recebi de Giovanni Rivetti o conselho definitivo: esqueça publicitários, prémios, resultados e méritos e foque apenas nas ideias. Como numa semana de moda, não interessa se vão comprar aquelas roupas ou não, pois de uma forma ou de outra as grandes tendências do mercado são estabelecidas ali. Fez sentido. Ainda mais vindo de quem veio. Giovanni sempre esteve ligado ao mercado publicitário, mas sempre atuou a partir de outra lógica, buscando explorar e criar formatos diferentes. Não é a toa que é pioneiro em branded content no país. Se ele pode gostar de Cannes, eu também posso.
Cheguei e fiz meu dever de casa. Assisti à praticamente todas as palestras e ainda a alguns workshops. Passei os olhos em todos os cases expostos nos shortlists. Fui na festa de abertura, frequentei o bar em frente ao Martinez. Não fui para nenhuma premiação, porque aí também já seria demais. Aproveitei o festival intensamente, espremendo o limão em busca da limonada.
E em resumo, depois de diversos insights, me parece que o mercado publicitário chegou a duas conclusões.
Primeiro, que tem de estar cada vez mais próximo da industria do entretenimento. Os melhores momentos de Cannes não tinham publicitários, mas sim entertainers. Jeffrey Bewkes, Aaron Sorkin, Jeffrey Katzenberg, Ben Silverman (mal aproveitado) e até James Murdoch nomes conhecidos de Hollywood, apresentaram a realidade de uma industria que não teve tempo de discutir as transformações da sociedade, uma industria que para sobreviver teve de mudar rápido. Falta ao mercado publicitário este senso de urgência, e disposição para abrir mão de uma lógica em função da outra, que é inevitável.
E o segundo ponto é um pouco do que já escrevi semana passada no blog da Brastemp. Com o surgimento das redes sociais, as marcas nunca tiveram tanto contato direto com seus consumidores. Deixando claro que estamos num tempo de menos propaganda e mais diálogos. Auto citando-me: "A indústria da comunicação está cada vez mais inspirando-se em outros movimentos sociais e caminhando em direção à sustentabilidade das relações entre os indivíduos e seus objetos de consumo, ao equilíbrio da qualidade de vida com os desejos de compras. Mais consciência e menos impulso. Transformação da vida, da rotina e do olhar, para o bem." Ofertas ou propostas de valor tornam-se irrelevantes, commodities, perto das grandes causas.
E no fim, acho que ambos estávamos certos. Muitos insights criativos em relação a formatos e execução. Muitas revelações no sentido do que queremos, e do que não queremos fazer enquanto comunicadores. Clareza absoluta de oportunidades de mercado. Certeza de que a industria do entretenimento é uma boa referência tanto na teoria quanto na prática. E aproximação com muita gente legal do mercado, publicitários como nós, que também buscam uma outra lógica na comunicação.
Mas, por mais positiva que tenha sido a experiência em si, não posso deixar de lado meu olhar critico. Não seria eu.
Num Festival onde falou-se tanto da necessidade das marcas adotarem suas causas, terminei com a impressão de que o próprio Festival de Cannes ainda não encontrou a dele. Criatividade não se inspira com prêmios. Ou com self-promotion. Ou com a construção de egos estratosféricos. Longe disso.
Citando John Milton, do clássico "Devil's Advocate":
"You sharpen the human appetite to the point where it can split atoms with its desire. You build egos the size of cathedrals. Fiber-optically connect the world to every eager impulse. Grease even the dullest dreams with these dollar-green gold-plated fantasies until every human becomes an aspiring emperor, becomes his own god. Where can you go from there? As we're scrambling from one deal to the next, who's got his eye on the planet? As the air thickens, the water sours, even bees' honey takes on the metallic taste of radioactivity... and it just keeps coming, faster and faster. There's no chance to think, to prepare; it's buy futures, sell futures... when there is no future."
De que adianta criar gimmicks geniais, peças incríveis, campanhas de sucesso e voltar para casa com a mala cheia de leões, se não estamos agregando nem um pouco na construção do nosso próprio futuro? No fundo, e apesar de todo lado bom, o Festival de Cannes é uma grande oportunidade perdida de transformar, se não o mundo, pelo menos a industria da comunicação, num lugar melhor. E com isso não me conformo.

@PedroTourinho
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